sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Da serie constatações

Quando a gente chega perto do banheiro... aí é que a coisa aperta de vez.

O fetiche intelectual

Não me desesperanço com aqueles que não leem e afirmam que não o fazem porque não gostam. É uma opção, com consequências negativas e positivas, como outra qualquer.
Eu lamento, deveras, por aqueles que passam mais tempo dizendo que gostam de ler livros do que lendo, propriamente.
Para esses, em que a literatura é um mero fetiche, um arremedo para seu hebetismo, dedico estas ingratas linhas.
Então, a esses que entram em livrarias todas as vezes que vão ao shopping e jamais compram nada, justificando que é caro, mas que, ironia dorida, jamais pegaram um livro emprestado numa biblioteca (senão quando um professor qualquer obrigou), a estes leitores de Dan Brown ou auto-ajuda, dedico humilde e singelamente, de coração contrito e lágrimas contidas, um olhar de cima para baixo, um desprezo que não consigo conter, uma lamúria derradeira sobre sua nociva pseudo-intelectualidade, a bagatela de vossas inteligências.
Eles se julgam superiores aos meros mortais por estes não lerem, por falarem eventualmente errado, por não terem curso superior. Quem dera estes pseudo-intelectuais pudessem permutar suas inteligências pelas suas arrogâncias. Julgam que uma é grande e a outra é bem pequena, quando na verdade, na maioria das vezes é exatamente o contrário.
Bem, nutrir tais sensações não me faz bem, é claro, mas convenhamos que é difícil se conter ante a ignomínia daqueles que deveriam compor a elite intelectual do país, e na verdade são fantasmas do que poderiam ser, fantoches que nada contribuem para o desenvolvimento da nação, mesquinhos eivados de uma soberba injustificada, que insistem ainda em se julgarem melhores do que os outros.
Vejo muita gente criticando o “povo brasileiro”, chamando-o de ignorante, preguiçoso e que tais, porém, muito mais pernicioso ao país do que sua parcela mais humilde é a sua elite burra.
Uma lástima.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Super-destinos

O Super-homem fazia propaganda da coca-cola.

O Homem-aranha fora pego mais de uma vez espiando mulheres nuas através de básculas de banheiros.

O Wolverine era o rei do vale-tudo (proibiam-no de usar as garras, aí já era demais).

O Homem de Ferro gastou todo seu dinheiro com prostitutas, apostas e por fim, com a heroína. Hoje vive
marginalizado, construindo brinquedos eletrônicos, porém, os negócios não vão bem (a China é foda).

O Aquaman está passando fome com a pesca predatória no mundo todo.

O bilionário Arqueiro verde perdeu um braço caindo de moto e sua fortuna na bolsa de valores. A Canário Negro o abandonou. Não se sabe ao certo se o término da relação tem a ver com seu súbito empobrecimento. Mas especula-se muito.

Robin deu um pé na bunda do Batman, o pai que ele não teve e nem queria ter, ser anti-social e maníaco-depressivo.

Capitão América cansou de ser o símbolo favorito do partido republicano, hoje é mundialmente conhecido como Capitão Suíça, e se notabiliza por defender o papa. Queimam as más línguas dizendo que tal poder ressuscitará a Santa (¿) Inquisição. Entretanto, mais de três dias já se passaram e nada ressuscitou.

Colossus entrou em terapia para tentar curar o amor platônico que sente pela irmã.

O Demolidor perdeu tantas nos tribunais, que hoje virou advogado de porta de cadeia. Aceita qualquer parada.

A Liga da Justiça se dividiu em dois times, vulgarmente conhecidos como “Vanguarda da Verdade” e “Defensores do Destino”. Como também são conhecidos pelas siglas VV e DD, os detratores dos respectivos grupos (sempre torcendo pelo outro) chamam uns de Viados Velhos e o outro de Demônios Deturpados.

De fato, os dois grupos vivem se estranhando, e cidades já foram destruídas sem que um lado sobrepujasse. Dada a multinacionalidade e os planetas diversos de origem dos seus membros, os heróis perderam seus greencards, neste momento estão em processo de extradição para a África. A direita estadunidense afirma que lá já não há nada para destruir, mesmo.

Salsicha, Scooby Doo e Garfield estão internados em um SPA, os três com obesidade mórbida, colesterol alto e severos outros problemas decorrentes de seus apetites insaciáveis.

A Felícia finalmente foi encarcerada devido à indubitável tortura que exercia em seus animais.

O Hulk foi oficialmente banido do mundo civilizado, dada a destruição por ele acarretada sempre que fica nervozinho. Porém, há um pesado lobby pedindo que ele volte. Desconfia-se que este lobby seja financiado pelas empreiteiras, que sempre lucram muito cada vez que o homem verde se estressa.

O já decrépito mestre Splinter - o rato mentor das tartarugas ninja - não resistiu aos muitos inseticidas despejados contra seus irmãos roedores, que calhavam por também afetá-lo e veio a falecer.  

O Surfista Prateado deu um tempo da Terra, pois segundo ele as ondas daqui não são nada perto de surfar nos anéis de Saturno.

Ciclope concorre arduamente com o Super-homem pelo título de herói mais mauricinho do universo. A disputa é acirrada e, se houvesse três ou mais concorrentes, fatalmente os dois iriam para o segundo turno.

O Coisa vive num zoológico. Não é das atrações mais visitadas, mas dá pra se suster (ele ganha royalties).

A Mulher-gavião casou com Falcão, vocalista do Rappa.

O Homem de Gelo se mudou para o pólo norte, está tentando conter o aquecimento global. Segundo os mais proeminentes cientistas, ainda não deu resultado.

O He-man resolveu tomar vergonha na cara e colocou uma bermuda por cima da cueca.

Os smurfs foram classificados como um tipo de inseto, parentes próximos das formigas.

Noturno dos x-men, voltou para o circo, mas agora se apresenta em dupla, junto com o Fera, o irmão que ele não teve.

O Flash quis disputar as provas de atletismo das olimpíadas sobre um pseudônimo, foi descoberto, perdeu a medalha conquistada, hoje é uma espécie de Ben Johnson dos heróis. Os jornais não escrevem, mas a boca miúda dizem que seu interesse não era a medalha, e sim os contratos da Nike que viriam a reboque, queria virar um Michael Jordan, um Tiger Woods do atletismo. Sabe-se que a generosidade desta empresa, se falta com os funcionários que fabricam seus calçados - a receber centavos de dólar por hora trabalhada nos grotões da Ásia -, é farta com seus patrocinados, a receber polpudos patrocínios. A média é ótima.

Thor abandonou o martelo, arma antiquada e em completo desuso, adquiriu um AR-15, eventualmente ajuda o Bope. Dizem que sonha em ser retratado no próximo filme Tropa de Elite, mas não acreditemos nisto, o povo fala demais.

Como se sabe, o Lanterna Verde é um ser qualquer que é escolhido pelo anel para defender o bem. Quando este soldado escolhido morre, o anel abandona seu corpo e vai a procura de outro. Pois bem, cansado de ser um mero joguete para o anel, seu portador, Hal Jordan, resolveu fazer exatamente o contrário, usar o anel em proveito próprio. Casou-se com uma milionária, e trocou o anel pela aliança. Só usa o referido para embevecer sua senhora, que tem fascinação por ser casada com um herói – as peruas socialites amigas da dita cuja morrem de inveja, e descontam esta raiva tendo relações extra-conjugais com ele.

Os Ursinhos Carinhosos se encontraram com os teletubs. Alguns pais mais reacionários insistem em dizer que ambos têm conotações homossexuais e proíbem os filhos pequenos de assistirem tais pornografias.

Gambit, rei da jogatina, estabeleceu-se definitivamente em Mônaco. De lá, diz que nunca sairá, mas não é verdade, na época das corridas de fórmula 1 ele sempre viaja – o diminuto país vira um inferno durante este evento, uma espécie de carnaval opulento europeu.

A Mulher-maravilha, cansada de tanto dar em cima de outros super-heróis e ser rejeitada, resolveu se entregar de vez a volúpia dos meros mortais. Virou mulher da vida, hoje dizem que já não cobra tanto quanto antes, a gravidade a afetou bastante.

O Motoqueiro-fantasma, exausto das fechadas de caminhões, dos buracos nas estradas, de taxistas, motoboys, IPVA's, licenciamentos, flanelinhas e pedágios, decidiu abandonar o asfalto e tornar-se o capitão-fantasma, comprou um barco e anda navegando pelos sete mares, não se sabe bem ao certo aonde.

O Apocalipse, dos x-men, deu um tempo com seus papos meio fascistas, de controle do mundo, domínio absoluto, autoridade universal, etc., etc., etc., virou pastor evangélico, hoje está numa cruzada pela salvação da alma dos infiéis. Tarefa árdua.

O Duende Verde encontrou seu lugar quando veio dar uma passadinha no carnaval do Rio de Janeiro. De imediato virou atração principal numa escola de Samba, a Estação Primeira de Mangueira, a famosa verde-e-rosa. O Duende nunca sentiu que algo pudesse ser construído de maneira tão perfeita para ele.

O Rei do Crime, cansado do submundo, resolveu assumir de vez a cafajestagem e se candidatou a um cargo no poder legislativo. Depois de mandatos como presidente de Assembléia Legislativa, resolveu deixar pra lá o parlamento, está indo ser ministro do Tribunal de Contas. Apesar das fartas provas, não se sabe bem porque, a imprensa não lhe faz uma denúncia sequer. Vai ver é o acaso agindo.

Magneto finalmente se internou num asilo. Anda muito revoltado, pois queria liderar os idosos com um papo de que eles eram os mais sábios e experientes, portanto, os mais novos deveriam se curvar perante suas maiores habilidades. Parte do seu exército dormia enquanto ele falava, parte não escutava, outra parte tentou marchar com ele, mas escleroses, hérnias de discos, bicos de papagaios, incontinências urinárias e afins impediram que a legião prosseguisse em sua marcha para a Vitória. Na verdade, Magneto e os seus não conseguiram sequer sair do seu bairro. E na dorida volta o Mestre do Magnetismo ouviu muitos desaforos.

O professor (¿de que, mesmo?) Charles Xavier – que fez implante de cabelo – eventualmente vem visitá-lo, conversam muito sobre o projeto genoma, remédios genéricos, perucas e Rita Cadillac.


O Pinky e o Cérebro, depois de tanto “tentar conquistar o mundo”, parece que conseguiram – dado que somos governados por ratos.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Da serie constatações

Lula: aquém do que poderia ser e muito superior aos que o precederam.
A velha história do copo meio cheio e meio vazio.
A questão é por qual ótica se avalia.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Da serie constatações

Antigamente dizia-se que outro mundo era possível.
Prefiro dizer que outro mundo é necessário.

Day After no Planeta dos Macacos

É interessante a extensa quantidade de filmes com cenários pós-apocalípticos que surgiram nos últimos tempos, tais como Eu Sou a Lenda, Fim do mundo, Exterminador do Futuro 4, O livro de Eli e A estrada.
Talvez, pensando de maneira bem otimista, tenham como efeito uma clarificação para os teleguiados pelos senhores da guerra dos efeitos que um conflito bélico de grandes proporções traria para o mundo.
Se atingissem este objetivo, creio que estariam no fastígio daquilo que a arte pode prover.
Creio, porém, que no fim das contas é mais espetáculo do que conteúdo.
Uma lástima.
E um desperdício.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A revolução vazia

Durante o avanço do projeto genoma humano, tido como uma das maiores façanhas da humanidade, muito se falou a respeito da revolução na biologia e na medicina que seriam oriundos de sua conclusão, as curas para doenças terríveis, como o câncer, diabetes, dentre outros tantos feitos que dali viriam.
Pois bem, o projeto foi concluído em 2003.
Porém, até agora, só estamos esperando.

O barulho ensurdecedor

Na Declaração Universal dos Direitos do Homem, logo em seu primeiro artigo vemos escrito:
Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos”.
Infelizmente, não é verdade nem uma coisa nem outra.
Como bem disse Jean Jacques Rousseau, logo no início de seu livro mais famoso, O contrato social: “o homem nasceu livre, e em toda parte se encontra sob ferros”.
Já quanto a igualdade em dignidade e direitos, cá estamos com outra quimera. Só vemos mais e mais desigualdade, mais e mais concentração de renda no mundo. Na década de 60, os 20% mais aquinhoados da humanidade eram trinta vezes mais ricos que os 20% mais humildes; na década de 90, a diferença entre os ricos e os desamparados havia subido para o dobro, sessenta vezes. Nos EUA a coisa é ainda mais grave. O 1% mais abastado possuía 9% da renda nacional nos anos 70. Hoje possuem 23,5% da renda total (e o Império ainda se assusta com a crise econômica que enfrenta).
Todo este grave quadro de injustiça social começa, para aquele que acabou de nascer, com a herança que receberá a partir daquele momento. No Brasil, bem como em diversas partes do mundo, o riquinho recebe o que há de melhor. Para o humilde, a escória que lhe cabe. Eles são iguais em dignidade e direitos, mas um terá um belo plano de saúde, o outro terá as filas e o atendimento precário do SUS. Um andará de carro com ar condicionado, o outro de ônibus lotado. Um herdará sua casa própria, o outro morará de aluguel, ou construirá sua residência numa favela ou periferia qualquer. Um estudará nas melhores instituições de ensino, o outro terá a sucata das escolas públicas como legado. Um estudará numa universidade federal (!), o outro sequer concluirá seus estudos. Um vai casar na igreja, vai ter festa, tudo certinho, o outro vai se “juntar” com sua mulher. Um vai ter um estritamente planejado casal de filhos com sua esposa, o outro vai ter quatro filhos de três mulheres diferentes, todos concebidos aleatoriamente. Os dois filhos premiados vão crescer e ter tudo aquilo que seu pai também teve. Os outros quatro também terão tudo aquilo que seu pai teve. Os dois primeiros vão ter bons empregos. Dos quatro últimos, um virará evangélico, uma trabalhará como atendente num shopping, um será motoboy, e um virará bandido e acabará sendo morto – pela polícia ou por seus comparsas.
No fim das contas, estes das famílias que tiveram tudo, não se darão conta de que possuem o que possuem não só por seus próprios méritos, mas simplesmente porque tiveram o acaso, o mero acaso de nascer em uma família com posses. Participaram de um jogo no qual já começaram vencedores. Não vão se tocar que diferentemente de outros, eles tiveram chances, puderam fazer escolhas, foram devidamente capacitados para obterem sucesso. E estes abastados, estes bons cristãos que toda semana vão a igreja pedir pelas suas almas e pela dos condenados, estes nascidos diferentes, estes herdeiros de oportunidades, estes com plano de saúde, boa (e gratuita) universidade, carro e casa própria, estes pequenos burgueses, do alto de sua pseudo-intelectualidade ainda terão a audácia de olhar para o programa bolsa-família com ódio, e com seu moralismo vazio bradar:
Isso é bolsa-esmola pra sustentar vagabundos!”.

Durma-se com um barulho desses.

P.S: já bem disseram que as duas substâncias mais comuns no universo são o hidrogênio e a estupidez. Não há como discordar – a não ser se descobrirem que o hidrogênio não é tão comum assim.


*: Clique aqui para ler a Declaração Universal dos Direitos do Homem.
**: Clique aqui para ler mais trechos de “O contrato social”, de Jean Jacques Rousseau.

Da serie constatações

Muitas pessoas dizem que, se nascessem animais, gostariam de ser tigres, leões, cavalos, ursos, etc.
Bem, não sei ao certo qual animal eu gostaria de ser, acho que seria um gorila, pela brutalidade, pela posição hierárquica na cadeia alimentar, por ser um dos animais mais inteligentes e próximos de diversas maneiras do homem.
Porém, se não estou certo do animal que gostaria de ser, tenho convicção daquele que não gostaria de ser.
Eu não gostaria de ser uma ave de rapina brasileira.
Mais especificamente, eu não gostaria de ser um tucano.

Aferindo os antagonistas

28 milhões de pessoas abandonaram a linha de pobreza durante o governo Lula, em um esforço oriundo muito mais da ideologia do governo do que pela pressão dos (de)formadores de opinião que compõe parte da imprensa nativa.
Para efeito de comparação, nos 8 anos anteriores, foram dois milhões que abandonaram tal deplorável estado.

Toda vez que escuto alguns áulicos do capital escrevem defendendo a democracia – escrevendo, claro, em veículos jornalísticos que clamaram pelo golpe militar, que apoiaram a ditadura, que suprimiram de suas páginas as torturas, a repressão, o endividamento, as obras faraônicas, o venha-a-nós, o “aos amigos tudo, aos inimigos a lei (?)”, etc. –, penso comigo, como alguém que passa fome, ou que mal consegue subsistir, pessoas que todo e todo e todo mês passam grandes dificuldades financeiras, privações da ordem mais diversa, humilhações e carências inimagináveis – a não ser por quem passa – penso comigo, ¿que diferença para esta pessoa faz o regime político que se apresenta diante dela? Pode-se inferir, que o que lhe importa é o seu sustento, a política é algo distante, o regime político lhe é indiferente, a possibilidade de poder viajar para qualquer parte do mundo é inútil, a facilidade de comunicação não lhe ajuda em nada, o poder de protestar não se lhe apresenta como uma possibilidade, a defesa do meio ambiente é uma frivolidade, a honestidade pode ficar em segundo plano ante a própria subsistência, o progresso tecnológico não lhe auxilia, a literatura e o conhecimento são coisas inacessíveis, tudo o que a modernidade e a evolução da ciência puderam dispor lhe são improfícuos.
Em outros termos, não há liberdade para quem é privado de condições financeiras mínimas.
Porém, o que se vê é a mesma pessoa que – supostamente – defende a democracia não gastar uma mísera linha para tratar dos desvalidos.

Mais de 10 milhões de brasileiros ainda estão abaixo da linha da pobreza, o que é extremamente revoltante, dado o grau de evolução tecnológica e científica da sociedade.

E esta fome que grassa é uma maneira inequívoca de se aferir a integridade de um jornalista ou do veículo que ele representa. O cálculo é o seguinte:
Enumere a quantidade de vezes que eles tratam a respeito da necessidade de amparar estes desvalidos.
Enumere também a quantidade de vezes que eles falam a respeito da necessidade da diminuição dos juros da dívida no país, que consomem mais de um terço das finanças governamentais (apenas para enxugar gelo, dado que devido a sua alta taxa, o governo não consegue abater a dívida propriamente, apenas paga – parte – dos juros da mesma).
Agora, compare com a quantidade de vezes que pregaram a diminuição dos gastos públicos (ou seja, gastos com saúde, políticas sociais, defesa, meio-ambiente, etc.).

E aí temos um método de aferição altamente preciso para se avaliar a integridade daqueles que nos escrevem.
Conseguimos comparar suas preocupações, de um lado, com os mais carentes e com a tenebrosa doação bilionária de dinheiro para os rentistas, e do outro, com o suposto elixir, a pseudo-panaceia de nosso país que seria a diminuição dos gastos públicos.
Pondo os pingos nos is: esta é uma linha cristalina que divide uns e outros.
Já escolhi meu lado – e ele é evidente.
E é bom que fique bem exposto que não há como ficar no meio, não há como defender tudo, não há como dizer que defende a redução dos gastos públicos concomitantemente a mitigação da pobreza: são coisas excludentes.
Bem, os dois caminhos estão delimitados, cabe a cada um decidir qual seguirá.
A pior escolha, porém, é permanecer alheio.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

As fontes

Lendo diversos escritos de filosofia/sociologia ao longo do tempo, muitas vezes observo autores citando Hobbes, Nietzsche e Platão como fontes.

Bem, creio que o mérito de Platão seja o de escrever lá nos primórdios, fundando bases até então inexistentes da filosofia. Porém, hoje, a maior parte de seus escritos são anacrônicos, e posso mesmo dizer que é impressionante que tenham sobrevivido até os dias atuais (simplesmente porque não possuem tanta qualidade assim).
A caverna de José Saramago, por exemplo, remete a ideia exposta no livro A república do autor grego. O impressionante é que a obra do escritor português é muito melhor do que o livro de onde partiu a ideia inspiradora do título.

Há um conceito um tanto quanto estulto de se recorrer aos sábios de muito antigamente, como suposta fonte de sabedoria e cultura inexistentes em nossos dias atuais.
A priori deve se começar dizendo que nossa época atual é a que mais acumulou conhecimento, temos uma quantidade muito maior de informações e diversos autores que – já tendo como base os muitos autores que os precederam – começam seus escritos de um ponto muito mais avançado que os autores antigos.
O discípulo mais famoso de Platão, Aristóteles, um homem com um bom senso extraordinário, como destaca Umberto Eco no livro Previsões*, já fez claras críticas a obra de seu mestre. A partir daquele momento, um leitor ou um escritor que tivesse lido os dois, já partiria de ponto mais avançado que o do próprio Platão, que não pôde sequer conhecer toda a crítica feita a sua obra por seu próprio discípulo.
Em outros termos: não é pelo fato de uma coisa ser muito antiga, que ela é necessariamente boa.
Não digo que todo seu material escrito deva ser desprezado, ao contrário. Há, sim, boas ideias em seus textos, rememoro-me de um adágio particularmente feliz: só os mortos conhecem o fim da guerra. Porém, julgo que este exagero de tamanha quantidade de citações vem única e exclusivamente do fato dele ser um autor antigo, e por isto, considerado basilar – o que é um erro.
É evidente que há seres geniais de outrora que dificilmente serão superados, como Michelangelo, Aleijadinho ou Leonardo da Vinci. Peguemos o caso do próprio Da Vinci, que explicitará bem o que quero dizer. A beleza de suas pinturas são eternas, dado que a técnica da pintura daquela época para a de agora pouco evoluiu, e seus quadros estão dentre os melhores de todos os tempos – e permanecerão assim, creio que para sempre. Porém, suas numerosas ideias de inventos estão todas ultrapassadas. Admiramos, claro, a genialidade da pessoa que pôde imaginar coisas, das mais diversas, do pára-quedas a um escafandro, da asa delta a um tanque de guerra, mas é um sentimento com um fim em si mesmo. Suas ideias não cabem mais.
O mesmo ocorre, infelizmente, com Marx. Muitas de suas ideias são inaplicáveis hoje em dia (faltou um gênio similar ao dele para atualizar sua obra com o mundo de nossa atualidade). Grande parte de suas ideias ainda possui validade, claro, mas a base de fatos sobre a qual ele fundou o comunismo se alterou, e hoje carecemos de uma nova visão da forma como este sistema deveria ser aplicado ao mundo, de como o comunismo reagiria, por exemplo, à sociedade de consumo (Georges Burdeau em seu livro “O Estado”** postula bem este problema).

Voltando ainda a Platão, ainda há mais um problema a ser considerado. Observando as ideias de inventos de Da Vinci, apesar de elas já estarem ultrapassadas, nós conseguimos admirá-las, devido a genialidade das mesmas, bem como as ideias de Marx para seu tempo. Porém, não consigo sentir o mesmo para com Platão, posto que não vejo tal genialidade.
Platão teve oportunidades de administrar cidades consoante suas ideias, e fracassou fragorosamente em todas elas.
Não digo que ele seja um beócio a ser desprezado, só afirmo que ele esta longe de ser o gênio que alguns pensam que é: parece-me muito mais um fetiche de ficar citando quem escreveu há mais de dois mil e quinhentos anos.


Thomas Hobbes. Sua obra mais famosa é “Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil***”. Ler este livro é tarefa das mais árduas, demanda um esforço sobrenatural para concluí-lo.
O livro possui até algumas boas ideias, como a citada abaixo:
“O que imaginarmos será finito. Portanto não existe qualquer idéia, ou concepção de algo que possamos denominar infinito. Nenhum homem pode ter em seu espírito uma imagem de magnitude infinita, nem conceber uma velocidade infinita, um tempo infinito, ou uma força infinita, ou um poder infinito. Quando dizemos que alguma coisa é infinita, queremos apenas dizer que não somos capazes de conceber os limites e fronteiras da coisa designada, não tendo concepção da coisa, mas de nossa própria incapacidade”.

Porém, creio que em mais ou menos 90% das suas centenas e centenas de páginas, deseja-se explicar que, na verdade um Rei é Deus na terra. Qualquer contestação a ele seria uma afronta a Deus e aos homens. Um Rei pode tudo. Tudo que ele faz é para o bem dos homens. Mesmo uma inequivocamente deplorável atitude sua, mesmo quando tudo prova que ele esta agindo errado, há alguma explicação para tal atitude – ele jamais erra.
Julgo que só há uma explicação para tamanha perda de tempo: Hobbes era uma pessoa que desejava um cargo na corte ou algo assim. Um bajulador, um servil, um adulador, um baba-ovo, mesmo, em resumo.

Calhou que seu escrito se deu justamente numa época em que o parlamento inglês estendia sua influência e que o despotismo monárquico (que ele insistentemente defende) ia perdendo força. No fim da vida foi ficando cada vez mais esclerosado, atacado por todos os lados – mas o rei, claro, o defendia. Não podia ser diferente, com um cartapácio que é quase uma ode ao puxa-saquismo universal, o adulador de reis teve na coroa sua defesa derradeira.
No século passado, serviu sobremaneira como inspiração para os fascistas de diversos países.
Não podia ser diferente.


Por fim, vamos a Friedrich Nietzsche, o anunciador de verdades, o criador de frases de efeito. Sua dita obra-prima, “Assim falou Zaratustra” não possui nenhuma coerência em seu texto. Ao contrário, o livro é escrito para que seus axiomas soltos se encaixem em algum lugar. Como as frases não possuem muita conexão entre si, ele vai tentando inserir um contexto para o qual elas possam ter algum sentido. De fato era uma tarefa hercúlea, e diferentemente de Hércules, o super-homem de lá não consegue dar cabo delas.

Nietzsche escreve da maneira mais hermética que pode. O resultado é que é necessário um significativo esforço para compreender seus escritos. O leitor, então, se esforça, porém, quando vai assimilando o que o autor está querendo lhe dizer, de fato, o desapontamento é inevitável, posto que a forma com que ele escreve é requintada, mas seu conteúdo é fraquíssimo. Há muito mais virulência na defesa de suas ideias do que genialidade. É como entrar numa casa onde a fachada é lindíssima, e ao atravessar a porta, observar que o interior é vazio.
Nietzsche, claro, também é um conservador nato, conseguia ser fascista numa época em que ainda não existia o fascismo, um crítico da Revolução Francesa, um escritor que em seu tempo foi sumariamente desprezado – e eu sempre tenho grande receio para com estes artistas ditos “incompreendidos” pelo seu tempo. Nietzsche não agrega nada, e o fato de ter enlouquecido no fim da vida não deveria ser motivo para ele parar de escrever, dado que sempre escreveu para os débeis.


* Para ler trechos selecionados de “Previsões” clique aqui.
** Para ler trechos selecionados de “O Estado” clique aqui.
*** Para ler trechos selecionados de “Leviatã” clique aqui.

Da serie constatações

Numa grande cidade, uma das condições cruciais para se ter qualidade de vida é morar perto de onde se trabalha/estuda.
E, mesmo morando perto, apenas o primeiro passo esta dado. Morando-se longe das suas atividades habituais, é muito grande a probabilidade de a pessoa viver mal.
O que resta é tentar remendar nas outras coisas.
Não sei se da muito certo – mas também não da pra desistir.

domingo, 14 de novembro de 2010

Uma das proezas

Todas as vezes que observo filmes antigos – como os bíblicos, por exemplo – e vejo seus personagens vestirem-se com bonitas, simples e arejadas túnicas, eu me espanto com a incrível capacidade do homem. Espanto-me porque mais de dois mil anos depois, com seus ternos, suas gravatas e seus jeans, os homens conseguem a proeza de se vestir de maneira mais feia, mais quente, mais apertada e mais desconfortável.

É realmente uma façanha.

O que diria Darwin de amanha evolução...

Tropa de Elite (se o político rouba...)

O primeiro filme tropa de elite foi acusado por muitos de ser um filme fascista, promotor da violência desmesurada, justificador de execuções policiais, etc. Muitas destas críticas vieram do espectro político da esquerda, porém, eu não concordava com elas, dado que não me parecia propriamente uma apologia de métodos policiais mais agressivos, e sim sua constatação.
O diretor do filme, José Padilha, dentre outros, já havia lançado duas películas que passaram desapercebidas pela maioria das pessoas que o criticava, uma denominada Fome, onde discorre sobre a trajetória de uma família mineira e a forma como sua miserabilidade a afeta em seu cotidiano, e o documentário Ônibus 174, sobre o sequestro do referido ônibus por Sandro do Nascimento, o “Mancha”, o execrado bandido, àquele, que o pai abandonou a mãe quando soube que ela estava grávida dele, que viu a mãe ser assassinada na favela onde morava, que foi morar então, na rua; que se viciou em drogas, que dormia na Candelária e não foi morto naquela chacina por puro acaso, que era analfabeto, que sequestrou o veículo e assassinou uma professora grávida durante sua ação – e, como é consabido, acabou sendo executado pela polícia no caminho para a delegacia.
Estes dois filmes, a despeito do pequeno público que então obtiveram, ao contrário de tropa de elite, atraiu críticas da direita.
Creio que quando uma pessoa consegue desagradar os dois lados do espectro político sem ser niilista, há de se dar um valor ao que se está sendo dito. Ponto para o Padilha.

O segundo filme tropa de elite é muito mais bem feito que o primeiro: a produção, o roteiro mais cerebral, todo o filme é melhor, mas não é por isto que aqui escrevo. A película tenta, de maneira mais clara que o antecedente, elucidar as origens da criminalidade – e vai longe.

Relembro de um conceito do Mino Carta: “¿o que seria do crime carioca se não fosse a polícia carioca?”. Em outros termos, o crime imiscuiu-se junto a polícia de maneira tão carnal, tão intensa, que não sobreviveria sem a polícia. Depende da sua da anuência, da sua omissão, da sua corrupção, da facilitação por parte da força combativa do estado para que ele possa ocorrer em (santa) paz – e até para ajudar no combate a determinados inimigos.
Os trechos em que o filme se debruça sobre as milícias, por exemplo, são fenomenais (abro um parêntese para dizer que as milícias são a prova inequívoca de que o crime no Rio de Janeiro não é tão difícil assim de ser resolvido, basta querer – se os milicianos conseguem tomar conta dos morros, ¿por que a polícia não o faz?).
O filme também mostra a ligação de políticos estaduais com o crime – de maneira mais intensa alguns deputados, de maneira mais “sombreada” o governador Molequinho.
Porém, no fim do filme, mostra-se um deputado federal que também fora ligado ao crime no estado do RJ e conseguiu ser eleito no pleito federal, e apresenta Brasília (mais especificamente o congresso nacional) como a própria fonte originária das mazelas da criminalidade.

É bastante extensa a crítica que se poderia fazer a este trecho. Decerto que os deputados não contribuem para a resolução (na parte que lhes cabe) do problema da segurança pública. Creio eu – com minhas limitações – que a maior contribuição que os deputados e senadores poderiam dar seria a simplificação da aplicação das leis brasileiras, a diminuição dos mil e um recursos que advogados espertos conseguem impetrar para protelar decisões judiciais, que fazem com que, por exemplo, Pimenta Neves, o ex-diretor do jornal O Estado de São Paulo e assassino confesso da jornalista Sandra Gomide (para ler sobre este crime aconselho a bela obra “O voo da rainha”, do já falecido escritor argentino Tomás Eloy Martinez), permaneça impune anos e mais anos, ou mesmo que um Maluf da vida prossiga por aí, jactando-se de santo ainda por cima (dentro do Brasil, porque se pisar fora será preso pela Interpol).
São contribuições significativas (e existem outras inúmeras, evidentemente, como a polêmica redução da maioridade penal para crimes hediondos) que o congresso poderia realizar, mas devido à sua imobilidade característica, não o faz.
Daí a justificar que o crime no Brasil tenha como origem Brasília ou o congresso nacional, lá vai uma grande distância.

Creio que neste aspecto o filme apela para o aspecto moralista fortemente reinante na sociedade brasileira – fato evidenciado nas últimas eleições. Apela para a origem de todos os problemas do Brasil como sendo originário dos corruptos, ladrões e safados que estão em Brasília. Eles existem lá, não tenho dúvida, porém não creio que sejam todos, aliás, nem que sejam a maioria.
Bem, por já ter morado no Rio de Janeiro, diversas vezes observei esta especie de “abstração imaginária” que Brasília representa para aquele estado – fator agravado, creio eu, pelo fato do governador Molequinho vincular os problemas daquele rico estado a suposta falta de apoio do governo federal – este referido governador não conseguia sequer atravessar a rua sozinho, necessitava de apoio do governo federal para fazê-lo.
Parece que todos os problemas do mundo se resolveriam num estalar de dedos se Brasília quisesse resolvê-los. Muitas vezes ouvi lá, também, que se a capital não tivesse sido transferida para o centro do Brasil, que se ainda fosse no Rio de Janeiro, as coisas seriam diferentes, que eles pressionariam mais, que os políticos realizariam mais, até por medo da população enfrentá-los.
Devagar com o andor, meu amor.
Creio, sim, que há um excesso de poder (e lobby, por conseguinte) concentrado em Brasília. Porém, também há um excesso de poder concentrado no Rio de Janeiro (basta lembrar, por exemplo, que 80% da marinha brasileira esta situada no RJ – pode-se afirmar que o Brasil não possui marinha, apenas o RJ a possui).
Se a capacidade crítica e mobilizadora do estado fluminense fosse assim tão significativa, eles não teriam elegido o próprio Molequinho como governador, e pior, eleito depois sua esposa para seguir desgovernando o estado. Se esta capacidade de movimentar os políticos, de protestar, de pressionar fosse assim tão elevada, os Maias da vida não teriam ficado tantos anos na prefeitura da capital, tampouco seu filhote teria vez na política. Também Eduardo Cunha (esta chaga maldita) não seria reeleito tantas vezes deputado federal, e o poder público não teria deteriorado a tal ponto de permitir que a cidade ornada de tantas belezas naturais hoje se encontrasse suja, velha e fétida.
Não faço esta crítica com vistas a caluniar a porta do Brasil que é o Rio de Janeiro, muito ao contrário. O estado do Espírito Santo vive o mesmo problema – tanto lá como cá já foi pior, friso –, elegeu políticos impressionantemente ruins: José (“tem que rapar o tacho”) Ignácio, José Carlos Gratz e seus 30 otários, José Carlos da Fonseca Júnior, Élcio Álvares, dentre outros tantos. Nas próprias eleições presidenciais, por exemplo, ¡no Espírito Santo José Serra ganhou (por cerca de 1 ponto percentual, é verdade) de Dilma Roussef! É impressionante, claro. A despolitização é um mal que grassa no país - e o PT no poder não conseguiu combatê-la, ao contrário, agravou-a. Porém, seria bastante conveniente ficar de cá culpando tudo que acontece com o Espírito Santo como sendo de responsabilidade de Brasília: não é. Tampouco é verdade que todas as misérias reinantes em nosso país sejam oriundas da corrupção ativa – acho, ao contrário, que a maior parte da tragédia brasileira tenha como origem não aquilo que é corrupção ativa, clássica, mas sim a corrupção moral.
Façamos uma digressão recuando no tempo. O então presidente João Goulart apresentou no congresso e conseguiu fazer aprovar a lei de Remessa de Lucros. Esta lei obrigava o capital estrangeiro a expatriar, no máximo, 10% do capital que introduzissem no Brasil. O resto deveria ser reinvestido aqui – uma lei altamente nacionalista. Os militares pseudo-patriotas derrubaram o presidente constitucionalmente eleito. ¿E o que fizeram com a lei? Caçaram-na. Claro, uma das justificativas do golpe era para defender o país. Que “bela” ironia, ¿não?
Venhamos para caso mais recente, já da era neoliberal. Peguemos o caso do PROER (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional), criado no governo FHC, assinado pelo então ministro do planejamento José Serra. Este programa visava salvar aqueles que não podem se dar mal: os banqueiros. Um exemplo significativo das benesses do programa é o caso do Banestado (que viria a ficar famoso também pelas CC-5), então banco estadual do Paraná, que recebeu 5,2 bilhões de reais do governo federal para ser “saneado”. Em seguida, o banco foi privatizado por 1,5 bilhões de reais, sendo que ainda tinha, afora o patrimônio original mais o aporte recebido, 1,6 bilhões de reais de crédito a receber (tudo em valores da época, hoje seria muito mais)
Esta obra prima de nossos queridos membros do PSDB não é corrupção, claro, longe disso. Não pra eles. (aliás, quantas vezes, nobre leitor, você já ouviu falar deste caso nos grandes veículos de comunicação?)
Nem me estenderei em falar sobre a doação da Companhia Vale do Rio Doce (clique aqui para ler mais sobre o assunto), que em poucos meses pagou o valor pelo qual foi privatizado. Outro caso clássico de corrupção moral.

Não é, em minha singela opinião, pelos desvios e roubos diversos que o Brasil (ainda) não é o país com o qual sonhamos. É sim por causa da corrupção moral que ainda não alcançamos o local onde deveríamos estar. As duas devem ser severamente combatidas, claro, mas uma é muito mais nociva, de efeitos muito mais amplos que a outra, não tenho dúvida nenhuma.
E ao se vincular a um moralismo mais venal, justificando tudo em Brasília de maneira generalizada, àquela corrupção clássica, o filme se presta a um desserviço, porque por um lado, não focaliza no inimigo mais contundente, e por outro, presta-se a justificativa para qualquer desvio moral dos demais cidadãos.
Em outros termos: quando nós ficamos a depositar em cima de TODOS os políticos as mazelas que ocorrem em nosso país, a vinculá-los todos à corrupção, à intriga, à safadeza e ao crime de maneira ampla, nós atentamos contra nós mesmos. ¿Por quê? É simples. Ora, se o político rouba, ¿por que eu não posso roubar também, levar aquele carro, aquela moto, limpar aquela casa? Se o político rouba,¿por que eu tenho que pagar imposto? Se o político rouba, ¿por que eu tenho que pagar multa de trânsito, não posso dar uma caixinha para o guarda? Se o político rouba, ¿por que não posso fumar um baseado? Se o político rouba, ¿por que eu que sou policial, não posso ganhar uma ajudinha pra complementar meu soldo ridículo? Se o político rouba, eu que sou juiz, ¿por que não posso vender uma sentença? Se o político rouba, eu que sou professor, ¿por que não posso aceitar esta molhada de mão do pai do aluno para passá-lo de ano? Se o político rouba, eu que sou dono de posto de gasolina ¿por que não posso batizar o combustível pra ganhar uma graninha a mais? Se o político rouba, eu que sou fornecedor do estado, ¿por que não posso entregar 90 unidades do produto de qualidade duvidosa quando me compraram 100 de boa qualidade? Se o político rouba, ¿por que eu, que sou dono de ferro velho, não posso furtar uma tampa de bueiro? Se o político rouba, ¿por que eu, que não tenho dinheiro pra comprar minha droga, não posso ir ali roubar o fio da empresa telefônica? Se o político rouba, ¿por que eu não posso pegar a internet ou a TV à cabo através de um “gato”? Se o político rouba, ¿por que eu, que sou flanelinha, não posso exigir o pagamento de dinheiro para “vigiar” um carro – e arranhar o veículo de quem se recusar a me pagar? Se o político rouba, ¿por que eu não vou dar preferência pra um conhecido meu, ao invés de dar para quem enfrentou esta longa fila? Se o político rouba, ¿por que eu, que sou funcionário público, vou trabalhar direito, pra eles mamarem mais? Se o político rouba, ¿por que eu que sou pastor não posso pedir uma contribuição mais recheada dos meus irmãos? Se o político rouba, ¿por que eu que trabalho no Detran e ganho muito menos que eles, não posso liberar uma carteira de trânsito sem a pessoa passar na prova se alguém me der uma ajudinha? Se outros políticos roubam, ¿por que eu, que consegui virar político, não vou roubar?

Andando assim, no fim das contas, todo mundo é passado para trás, todo mundo é mutilado dos seus direitos, todo mundo sai perdendo.
Observo que muitas vezes Brasília é tão e tão somente um álibi fajuto. Nada mais, nada menos que isto.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Os filhotes de Guga

Lembro-me que quando Gustavo “Guga” Kuerten chegou ao topo da escala do tênis mundial, em 2000, muitos predisseram que, devido ao grande impacto midiático de sua aparição no Brasil e o decorrente aumento da presença de jovens nas escolinhas de tênis, daí a alguns anos veríamos diversos outros tenistas brasileiros no fastígio deste nobre esporte.
Os 10 anos previstos pela maioria dos analistas se passaram.
¿E agora, José?

Um lembrete

Israel pensa que cada dia que passa, faz-se esquecer as atrocidades que comete.
Israel pensa que o conflito entre palestinos e israelenses passa aos olhos do mundo como uma guerra interminável – não uma guerra devido a uma ocupação de um país por outro, como o Iraque pelos EUA. Muitos até podem pensar assim, que o conflito no Oriente Médio faz parte das guerras habituais daquela região. Mas nem todos, Israel. Nem todos.
Israel pensa que continuará para sempre cometendo todos os crimes que quer cometer e o máximo de consequência que terá serão homens bombas perdidos e mísseis vagabundos: não será.
Israel quer nos fazer cansar e que deixemos pra lá o sofrimento dos palestinos.
Israel quer que não aprendamos, ou se já aprendemos, que nos esqueçamos da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Quer também que fiquemos ignorantes de seus apêndices, como a Declaração sobre a Concessão da Independência aos Países e Povos Coloniais. Lá vemos gravado, dentre outros, logo em seu primeiro artigo:
"A sujeição dos povos ao domínio estrangeiro é uma negação dos direitos fundamentais do homem".
Mais do que isso é desnecessário dizer.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

As togas do atraso

Basicamente nenhum progresso social, moral ou intelectual ocorrido em nossa sociedade é conseguido através do poder judiciário. Ao contrário: é conseguido apesar dele.

Terreno vasto

Toda vez que leio ou vejo uma reportagem qualquer, em que uma pessoa se refere ao presidente de uma empresa como CEO (Chef Executive Officer) ou Chairman, eu penso como deveras é impressionante os limites da imbecilidade humana.
Se é que eles existem.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Obrando durante a leitura

Sempre acho incrível a “capacidade” que algumas pessoas possuem de ir para o banheiro dar uma bela de uma cagada e levarem o jornal para lerem enquanto realizam sua “obra”.

Pois pra mim isto não cabe, dado que não dá tempo sequer de ler uma coluna.
E dependendo do aperto, ¡nem um parágrafo!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Uma boa lembrança

Atrás de uma apresentação de motociclistas, embrenho-me pelo interior do Espírito Santo, curvas atrás de curvas que escondem outras curvas (a dona Maria pede arrego e quer vomitar), muito barro e muitos morros, eis que chegamos.
Uma sede abrasadora me abate, entro num bar a procura de água. E naquele local inóspito e afastado, longe da “cidade grande” (o Espírito Santo, de fato, não possui nenhuma que assim possa ser alcunhada), onde as casas estão a centenas de metros uma das outras (quando não quilômetros), qual não é o meu espanto ao entrar no bar e me deparar com diversos quadros, enormes, de Che Guevara. Saio saciado – em vários sentidos – do recinto e penso cá com meus botões: “talvez nem tudo esteja perdido”.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Um voto poético

A escalada de calúnias infundadas quase me leva a votar em Dilma Roussef (PT), porém, devo mesmo votar no grande Plínio de Arruda Sampaio (P-SOL) – a despeito das severas restrições que nutro pelo seu partido.

¿Por que votar no Plínio?
Bem, sonhar é preciso. Viver... viver não é preciso.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

¿Pra onde vai tanta inteligência?

Toda vez que escuto alguém tratar do Roger, vocalista da banda “Ultraje a Rigor”, vem o repetitivo discurso sobre seu elevadíssimo quociente de inteligência, o famoso QI. Normalmente as pessoas possuem um QI entre 90 e 110, o dele seria de 172.
Bem, ele até pode possuir tal QI elevadíssimo. Porém, é fato que não o utiliza para compor as letras de sua banda.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Eu contra o reflexo (distorcido)

Só uma pessoa pode concordar 100% com suas ideias, e esta pessoa é ela própria.
De qualquer modo, ainda assim, por um curto espaço de tempo. Estabelecêssemos uma diferença temporal e pudéssemos encontrar com nós mesmos, teríamos diversas discordâncias entre si.
Talvez, com uma distância um pouco larga, uns 5 anos, periga que a diferença fosse tão grande que seria irreconciliável – e, pasmem, nos tornássemos inimigos de nós mesmos.

E aí me vem invade a mente a kafkaniana situação: vem uma pessoa cinco anos atrás com esta ideia do que aqui escrevi. ¿Será que eu concordaria com ela?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Da serie "definições"

Guarda-chuva: um objeto perfeito para proteger sua cabeça e seus ombros da água.
Daí pra baixo, que Deus lhe ajude.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Oposição benéfica

Pelo fato de ler muito, diversas pessoas me perguntaram a respeito de minha opinião sobre Paulo Coelho. E ocorre, mesmo, algo singular com este escritor. Seus críticos são extremamente ácidos, ferinos, desmoralizam sua obra com todas as suas forças. Talvez até por isto, seus admiradores o defendem com a mesma veemência, tão insensata quanto a de seus detratores.
Bem, tendo lido diversas obras do autor, muito me espanta toda esta celeuma em torno de seu nome. Li bons livros dele, como “O Alquimista”, e outros livros bem fracos. E só. Paulo Coelho não é um divisor de águas. Não há porque haver tanto exagero, tanta paixão.
Porém, ocorre toda esta balbúrdia em torno do seu nome e, pode-se observar facilmente que tal disputa é extremamente benéfica ao próprio autor. Não importa que ele não seja uma unanimidade. Importa, sim, que tenha seus fãs fieis, seus defensores sob quaisquer condições, e ele os possui. Paulo Coelho é o maior beneficiário desta disputa, e os pesados ataques que sofre, fazem com que seus seguidores o defendam ainda mais ardorosamente.
Talvez quem o critique não perceba o efeito colateral de sua condenação exagerada.

O único ponto que me espanta sobre Paulo Coelho não é nem sua obra, mas seus leitores em si. Já observei que diversos deles, segundo eles próprios, liam todas as suas obras, e, quase imperceptivelmente, calhava que somente liam este autor.
E, posso afirmar sem nenhuma sombra de dúvida: a pessoa que não lê perde muito, muito, mesmo; porém, a pessoa que lê tão somente um autor sofre inexoravelmente de alguma patologia.

A inversão da máxima

Um antigo provérbio latino dizia “senatores boni viri, senatus autem bestia”, ou seja, “Os senadores são boas pessoas, mas o Senado é um animal feroz”.
No Brasil temos a inversão destes valores. Podemos afirmar que: “O Senado é uma boa instituição, mas os senadores são feras atrozes”.

Carrão

Um jeito absolutamente simples para se identificar um grande carro é verificar se ele possui freio a disco na traseira. Em havendo, pode-se ter certeza: estás diante de um belo equipamento, um carrão.
Já meu carro não o possui.
Paciência.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

sábado, 14 de agosto de 2010

Aforismo LXXXI

Há quem diga que o trabalho enobrece o homem. Pois para mim, a verdade é que o trabalho tão somente embrutece o homem.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Mais uma da serie "constatações"

Se a eleição presidencial brasileira fosse um concurso de feiúra, certamente teríamos os melhores candidatos do planeta.
Ou talvez até mesmo do universo, sabe-se lá o que se apresenta (ou não) nos confins estelares.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Da serie "constatações"

Quando penso que Kaká entrará para a história como a maior fraude, o maior embuste do futebol de todos os tempos, eis que Alexandre Pato é novamente convocado.
Ais meus sais.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Aforismo LXXVI

Se um homem é inexoravelmente sentenciado ao inferno por cometer o suicídio, ¿os que o levaram a tal ato de desespero serão condenados ao que?

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Aforismo LXXV

Desconfie de quem só vem lhe trazer boas notícias.

Aforismo LXXIV

Casamentos, CPI's e guerras só têm data para começar.

Réquiem (O que vai e O que fica)

É atribuído à Heráclito de Éfeso o conceito de que não se entra duas vezes no mesmo rio.
Isto porque, ao se voltar para ele, a água que ali estava já mudou, a despeito de na aparência ele ser o mesmo.
Pois bem, o filósofo que nutria tal ideia tinha a ideia de que também somos como um rio. As coisas mudam, a despeito de parecerem as mesmas.
E quando li o último livro de Saramago, Caim, pensei que nem tudo muda. Passa a água, passam-se os dias, a terra cobre seu giro, as estações se esvaem, envelhecemos e... José de Souza Saramago prossegue sendo meu autor favorito – com alguma distância para os outros. Faça chuva, faça sol. Talvez seja a única pessoa que eu possa dizer, infantilmente: sou fã dele.
Eis que hoje o renomado autor se despede do mundo dos homens, aos 87 anos, completamente (barbaramente eu diria) lúcido e ainda escrevendo (digo escrevendo, e não trabalhando). Vai-se para minha tristeza, e, mesmo que não o saiba, vai e deixa aqui comigo, que escrevo estas singelas linhas, um naco de uma distante dor amarga e solidão intelectual, uma triste sensação de que a humanidade perde demasiado, e que não há ninguém a vista para compensá-la.
A verdade, é que ficamos sós. Intensamente sós.
De qualquer modo também fica uma vasta obra para quem tem bons olhos. Uma minoria os possui, não posso deixar de frisar.
Íntegro, inteligente, único Nobel de literatura para a língua portuguesa, dono de uma visão absurdamente clara sobre o mundo e sobre as relações humanas, comunista, ateu convicto, Saramago se vai.

Esta noite rezarei por ele – contrariando seus desejos.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Culturas e arquétipos

Como qualquer civilização de qualquer época, o conceito antropológico da cultura cristã ocidental nos impõe uma serie de limitações, mais ou menos explícitas conforme o caso.
E estas limitações existiriam e existem, em culturas diversas da nossa, como a nipônica, a russa, ou a muçulmana. Evidente que há muitas peculiaridades, quarks específicos dentro de universos em expansão, são muitas as especificidades que poderiam ser levantadas, incongruentes com a maioria reinante, mas há genéricas convergências que podemos elencar, mais ou menos facilmente, a depender do caso em que se avalia.
Fato é que, a despeito de serem diferentes entre si, as limitações e/ou normalidades existem dentro de cada universo cultural
Destarte, determinados padrões que julgamos ser de nosso gosto pessoal, muitas vezes nada mais são do que repetições que acabamos por assimilar com o passar do tempo.

Podemos enumerar casos famosos de elementos culturais que hoje soam como absurdos, mas eram corriqueiros outrora. Na cultura greco-romana, por exemplo, a forma como os relacionamentos amorosos aconteciam, o descarte de crianças especiais (!), o conceito matrimonial, a constância dos relacionamentos hetero e homossexuais, a maneira que lidavam com a morte, o incrível relacionamento com seus licenciosos deuses (de padrões comportamentais e instabilidade emocional dignos de uma novela mexicana), etc.
Tudo hoje nos é estranho, assim como no futuro, creio que parecerá bastante estranho o que fazemos atualmente para quem puder nos observar.
Aliás, não carece nem recorrer a algo tão serôdio para exemplificar, se avaliarmos detidamente alguns fatos que nos permeiam podemos detetar elementos curiosos que acabam nos passando despercebido justamente pela repetição cultural.
É muito estranho para um estrangeiro, por exemplo, o fato de nós, brasileiros, com raras exceções, comermos arroz e feijão todo santo dia – se é que os dias atuais são santos –, não enjoando nunca. Todo, e todo e todo dia arroz e feijão, variando os agregados tão somente.
¿Por que não enjoamos de tamanha repetição?
Porque essa é a nossa cultura, é o nosso arquétipo, entendamos como quisermos.


Pois bem, como já foi dito, dentro destes caldeirões de repetições e analogias, encontremos uma idiossincrasia que, mesmo dentro de uma cultura à qual eu deveria estar acostumado, não consigo me adaptar.
São as vestimentas do casamento como um todo.
Pensando bem, tentando avaliar com alguma isenção, assim como podemos conceber que nos alimentarmos da mesma comida todos os dias de fato é estranho, talvez consigamos imaginarmo-nos fora de nossa cultura e poderemos vislumbrar quão ridículas são as roupas que as pessoas utilizam nesta convenção social que é a cerimônia de casamento.
Vejam o vestido de uma noiva.
Pensemos bem.
¿O que é aquilo, gente, pelo amor de Deus?
¿Pra que cauda?
¿Pra que véu?
¿Por que branco?
¿Por que o símbolo da virgindade, num mundo em que sabemos que...?

¿Não é algo que vamos fazendo simplesmente porque antecedentes a nós fizeram também?
É uma tradição, compõe a nossa cultura, “pega mal” não fazer assim. ¿Mas será que é esta a maneira como devemos arquitetar nossas ações, baseando-as no passado, mesmo que equivocado e/ou nonsense?
Nem me deterei mais neste aspecto do vestido da noiva em si, para não provocar demasiado o público feminino.

¿E os homens, com seus ternos em nosso país tropical?
¿Fica bonito? Sim, fica, ¿mas faz sentido vestir-se assim, para suar a cântaros, empapando-se de suor enquanto a cerimônia ocorre na (normalmente abafada) igreja?
Aí os homens vão para a festa e lá tiram o terno, ficando trajados com uma roupa que é um meio termo sumamente interessante, pois nem estão bem arrumados mais sem o terno, tampouco estão com uma roupa confortável para a dança. Uma proeza.

Avaliemos mais detidamente as convidadas.
É evidente que uma mulher bem vestida, bem arrumada, fica mais bonita (dentro de nosso atual padrão de entendimento, é claro, sabendo que isto muda com o tempo, já que as mulheres mais gordinhas, outrora julgadas mais “fortes” para procriar, foram nosso padrão de beleza décadas atrás).
Porém, a forma como as mulheres vão para as festas de casamento – mesmo considerando o fato consabido de que as mulheres se vestem para outras mulheres – é muito estranho.
Inserem torrões de maquiagem na cara, cada penteado que mais parecem serem inspirados em algum animal selvagem africano, saltos altos elevadíssimos, que não bastassem serem esteticamente estranhos, ainda as impedem de andar (¿os calçados não deveriam ser auxílios à locomoção, e não estorvos?), e aí ficam dando aqueles ridículos passinhos curtíssimos e ainda escorando-se no parceiro para não desequilibrar. Afora os colares, tão vistosos que seriam capazes de ofuscar o mítico “coração do oceano”, aquela pedra azul utilizada pela personagem feminina de Titanic, dentre outros detalhes que me escapam agora.

Tentando avaliar com isenção, julgo que uma mulher que se arruma bem, consoante a nossa cultura, para um casamento, na verdade fica mais estranha, mais feia e mais atrapalhada que uma mulher simplesmente bem vestida que vai para um evento com seu namorado, por exemplo.

Talvez seja difícil assimilar uma ideia extemporânea destas, mas se considerarmos com a devida distância, encontraremos muitas outras estranhezas ao nosso redor.
Está certo, estamos tão acostumados que já seria até estranho imaginar as mulheres produzindo-se para o casamento de maneira diferente do atual. Mas que elas ficam estranhas, com certeza ficam...

Ah! Evidentemente, amanhã comerei o meu feijão com arroz.
Em paz.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Tragédia cansativa

Era jovem, impávido, o mundo nas mãos, pelo menos assim pensava. Na escola não havia destaque, ou até havia, negativo. Anos que se desperdiçaram, não ficava reprovado por causa da aprovação automática – sua “tábua de salvação”. Em outros tempos, estudaria com crianças bem mais jovens que ele – perdão, ele, claro, pode se julgar tudo, menos criança. Ao contrário. É esperto. Muito esperto.
Arruma uma galerinha, são seus grandes amigos, melhores amigos, neles confia decididamente.
Porque um começou, porque outro chamou e disse que era bom, arrisca a primeira entorpecente experiência, gosta, aprova, a vida passa a girar em torno disso. De qualquer modo, ele é o cara, quando quiser, pára. Quando tentar parar, porém, não vai conseguir.
Chega um momento, não distante, desiste de se enganar e abandona definitivamente as aulas.
Dia inteiro com a mesma galera, nenhum trabalha, poucos estudam. Quando o fazem, são em escolas absolutamente improfícuas destinadas a conformar futuros também demasiado improfícuos.
E aquela repetitiva tragédia começa a ocorrer: brigas com os parentes (refúgio na galera), ausência de perspectivas, falta de dinheiro para alimentar o vício, sumiço de pertences domésticos, furto, roubo, roubo a mão armada.
Como os elos da corrente se insinuam pelos seus pulsos de maneira mais sutil do que se pode imaginar, quando menos se percebe já se está inarredavelmente enclausurado por uma realidade, que aí consegue compreender, lhe é asfixiante. Já é tarde.
Sente falta, sente muita necessidade do que se acostumou a tomar, a fumar, a injetar, a cheirar. É-lhe irresistível. E é verdade, ele não está mentindo agora.
Os grilhões lhe rodearam, ele sente isso, sabe, quando reflete mais detidamente, que está indo numa direção errada. Mas tudo o faz voltar para isto. É um ímã, um ímã que lhe faz gravitar em torno de uma atmosfera corrompida, um ar viciado que ele não consegue deixar de respirar.
Ao mesmo tempo em que ama utilizar o que o narcotiza, odeia a dependência em si. E para aliviar este ódio da necessidade, só lhe resta o caminho mais fácil. Quando sente a dependência, aquela necessidade, aquela ânsia insuportável, aquela fissura, como eles gostam de dizer, só lhe resta um caminho: aplacá-la com mais veneno. E depender dele cada vez mais, num maldito ciclo sem fim.
Cada vez mais íntimo de seu contexto, segue a tendência dos homens: prosseguir adiante. E ousa mais, e se droga mais, e deve mais dinheiro, e se arrisca mais, e furta mais, e rouba mais descaradamente, e tudo o mais.
Seu grupo se reduz, um ou outro consegue se livrar. Fracos, merdas, quase traidores pensa em dizer, mas não vai tão longe. Ficam fora de sua área de influência, somem, eles já não são nada pra ele, vitupera o passado de tê-los julgado seus amigos.

Há de se reconhecer: não é difícil encontrar o caminho que se leva ao abismo. Difícil é sair dele.
Mérito há muito para quem contemplou as trevas e se recusou a nelas fazer moradia. E outro tipo de mérito, menos inteligente e mais intenso, há para aquele que ali esteve e conseguiu se livrar da mancha que lhe incrustava os poros.

E toda a intrepidez, toda a força que julgava possuir, toda esperteza, vai desaparecer em instantes, efêmera, falsa, fogo-fátuo que é.
Vem o destino ao seu encontro, como um trem com seu peso descomunal e seu ruído infernal.
Aqueles parentes (chatos, é “óbvio!”) tentaram avisá-lo, tentaram alterar sua trajetória, tentaram resgatá-lo, dentro de suas limitações fizeram o possível. Chega um momento, porém, em que percebem que não há escapatória, começam a se proteger mais, tentam voltar a priorizar suas próprias vidas. Ainda há esperança, tentam puxá-lo de volta, mas são sempre decepções e decepções.
Foi tudo em vão, não pode haver salvação para quem não quer se salvar, tampouco ao menos deixar-se ser salvo.
Em algum momento, estes mesmos parentes desistiram, e no seu íntimo, eventualmente, até mesmo torceram para que o fado viesse estender as suas garras e lhes livrar do que obsedava a sua vida. E como bem sabiam os gregos, nem mesmo o mais poderoso dos deuses podia lutar contra o destino.
E então ele se apresenta.
Contra toda a esperteza, toda a audácia, toda a segurança que ele carregava em si, eis que surge um singelo motoqueiro, não se sabe se lhe dirige uma derradeira frase, a última que levaria para o lugar (sabe-se lá onde) que se destina: dá-lhe um tiro no pescoço, e tudo o mais escorre pelo bueiro da ignorância.

O que pessoalmente mais me entristece não é nem tanto observar o tétrico fato da morte, do desperdício, em si. É, sim, vendo-o, me lembrar de outros tantos e tantos, similares, desesperadamente similares, e questionar para o meu imo: ¿Quantas vezes mais haverá esta cena de se repetir?
Parece uma burlesca novela qualquer, em que a história é sempre repetida, mudando apenas os personagens e um ou outro detalhe. Neste, por exemplo, novidade sádica que se destaca, o tiro ter atingido o pescoço.

É uma lástima. Uma lástima que cansa e machuca.

terça-feira, 27 de abril de 2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

A história se repete

¿Os dízimos das igrejas contemporâneas não são bastante similares às oblações – quiçá de homens, animais, presentes diversos, etc. – feitas por tantos e tantos povos, nas mais diversas religiões, em tempos idos?
A história se repete – diz Marx que – sempre como farsa.

No caso, vai lá se saber quando foi que esta começou a se repetir.
Certo é que desde muito.

sábado, 27 de março de 2010

quinta-feira, 11 de março de 2010

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Quase lá

Se eu fosse São Pedro, Slash, ex-guitarrista do Guns N' Roses necessitaria de pouco mais para ter seu caminho de ida ao céu garantido do que o solo de guitarra da música “sweet child of mind”.

sábado, 23 de janeiro de 2010

¿Eclipse da razão?

E eis que acontece um eclipse que só se repetirá em séculos e mais séculos adiante.
E ano que vem, ocorrerá outro eclipse, que só se repetirá em séculos e mais séculos adiante.
E no outro ano...
Vá lá entender...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Do céu vermelho ao inferno azul

Poucas coisas podem ser tão nocivas a esquerda do que ex-comunistas. Que o digam Roberto Campos, Golbery do Couto e Silva, Roberto Freire, Carlos Lacerda, dentre outros tantos, a lista é longa.

Não me estenderei sobre a integridade dos mesmos - nem preciso -, só me aterei a um fato: estes nunca foram comunistas.