quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Salomão – uma história e um adágio

     No Antigo testamento, especificamente no primeiro livro dos Reis, 3,16-28, conta-se a história que duas prostitutas viviam juntas, e uma teve um filho com apenas três dias de diferença da outra. Porém, uma das crianças morreu à noite, e as mães se acusavam reciprocamente de terem trocado o menino, de modo a parecer que fora o rebento da outra que falecera e o seu permanecia vivo. Restara, portanto, uma criança para duas auto-atribuídas mães. Elas dirigiram-se ao rei Salomão, em um costume antigo, pedindo que Sua Majestade fizesse justiça, tomando uma decisão sobre a demanda que as dividia.
     Como solução para esta querela, o Rei israelita pediu então uma espada para partir a criança ao meio, desta maneira cada uma das mães ficaria com a metade do corpo do neném e ambas estariam satisfeitas. Ante decisão tão severa, uma das mulheres preferiu ceder e entregar o filho inteiro a outra do que vê-lo cortado. Esta outra, entretanto, concordou com a cruel divisão do bebê em duas postas.
     A pequena história poderia ser mais uma das múltiplas decisões ásperas do Antigo Testamento, mas o rei Salomão, em um gesto de sabedoria emanada do próprio Deus, manda então que se entregue a criança viva e íntegra a primeira mulher, que preferira perder o filho a vê-lo dividido. Aquela era a mãe.
     Muito curioso é que ao término dessa história, “todo o Israel ouviu a sentença que o rei proferira, e temeu ao rei; porque viu que havia nele a sabedoria de Deus para fazer justiça.”
     De minha parte, sempre imaginei que a justiça aplicada com sabedoria não seria algo a se temer, mas sim a se louvar. O povo israelita parecia pensar diferente.
     Não sei se algo mudou até os dias hodiernos.


     Em outro momento, o mesmo Salomão, em um dos seus múltiplos adágios considerados inspirados (em vários sentidos), afirmou que nada de novo havia de baixo do sol.
     Não só foi desmentido literalmente pelos avanços tecnológicos, que nos permitiram avançar para lá dos céus onde ele sequer imaginava que alguém (ou alguma coisa enviada por nós) poderia certo dia alcançar, mas mesmo metaforicamente, seu aforismo não se sustenta.
     Isto porque, pra quem se atenta, a vida não para de nos surpreender.