quinta-feira, 11 de maio de 2017

Planeta bola

     Eduardo Galeano, no delicioso livro Futebol ao sol e à sombra, relata a pergunta de uma jornalista à teóloga alemã Dorothee Solle:
     “– Como a senhora explicaria a um menino o que é a felicidade?
     – Não explicaria – respondeu. – Daria uma bola para que jogasse.”

      Pois bem, aqui vemos este conceito materializado numa imagem.

Alpes de Algovia, Bavária, Alemanha - por Fabian Krueger (Fotografia - site homônimo)

terça-feira, 2 de maio de 2017

O que ilumina também ofusca

     É interessante notar que em Gn 15,5, Javé leva Abrão (depois renomeado Abraão) para fora da tenda e num jogo com as palavras o desafia a contar as estrelas se puder. Em seguida, afirma que sua descendência será tão farta quanto elas.
     Muito tempo se passou e hoje, sob vários aspectos, não vemos os mesmos céus que os antigos viam.
     Se avançamos muito em quase todas as áreas, especialmente nas possibilidades de maior conforto, por outro lado eventualmente também prosificamos nossa realidade – até mesmo o céu já não é tão poético quanto outrora.
     Tão ofuscados pelas luzes da cidade, se Javé repetisse a fala nos dias de hoje, legaria a Abrão uma descendência bem diminuta, possivelmente que caberia apenas na palma de uma mão.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Da série constatações

     A diferença entre “senso comum” e “bom senso” é facilmente observada.
     Senso comum é o modo de pensar da maioria das pessoas. Já bom senso, claro, é aquilo que eu tenho.
     Diga-se de passagem, é preciso ter algum bom senso para perceber que esta análise compõe o senso comum.

sábado, 19 de novembro de 2016

Fotografia manipulada - por Michał Karcz (Site homônimo)

Da série constatações

     “Aquele que elabora uma política e é incapaz de expô-la claramente aos outros esta em pé de igualdade com quem jamais pôde concebê-la” disse Péricles, filho de Xântipos, num discurso em Atenas há dois milênios e alguns séculos.

     ¿Não lembra alguém que ocupou o cargo de presidente da república no Brasil?

Fotografia - por Audun Rikardsen (site homônimo)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Doenças incuráveis

     Navegando pela internet, deparo-me com um site que anuncia em letras garrafais: 

CURA QUÂNTICA BIOENERGÉTICA ESPIRITUAL

     É aquele tipo de coisa que você não pode deixar de perder.
     Só de ter lido o título já me senti um pouco mal, parecendo que os anticorpos do meu corpo reagiam para não ser infectado pelo vírus do embuste quântico.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

quinta-feira, 16 de junho de 2016

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Da série constatações

     Triste é dar-se conta de que, caso Jesus Cristo retornasse a terra hoje, com certeza ele seria assassinado por suas ideias, valores e crença religiosa, do mesmo modo que há mais de dois mil anos.
     Parece que não evoluímos muito nos motivos que o fizeram vir a terra (não eram os tecnológicos).

    Uma pergunta que se pode fazer é: ¿quem cometeria esta barbaridade?
     Arrisco responder que algumas autoridades mantenedoras do status quo (notoriamente as do Estado) seriam especialmente propensas a fazê-lo.
     Mas, se viesse a ser assassinado por conta de suas crenças religiosas, é certo que, por uma das ironias da história, não seria assassinado por ateus: mas por lideranças religiosas cristãs.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Papel de parede - por Static pexels

Da serie constatações

     Triste é o país em que há cidadãos que vão para a rua protestar contra a corrupção e o fazem com a camisa que ostenta o brasão da CBF e, como se não bastasse, alguns levam a bandeira brasileira, mas queriam mesmo era morar em Miami.
     Uma lástima.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Salomão – uma história e um adágio

     No Antigo testamento, especificamente no primeiro livro dos Reis, 3,16-28, conta-se a história que duas prostitutas viviam juntas, e uma teve um filho com apenas três dias de diferença da outra. Porém, uma das crianças morreu à noite, e as mães se acusavam reciprocamente de terem trocado o menino, de modo a parecer que fora o rebento da outra que falecera e o seu permanecia vivo. Restara, portanto, uma criança para duas auto-atribuídas mães. Elas dirigiram-se ao rei Salomão, em um costume antigo, pedindo que Sua Majestade fizesse justiça, tomando uma decisão sobre a demanda que as dividia.
     Como solução para esta querela, o Rei israelita pediu então uma espada para partir a criança ao meio, desta maneira cada uma das mães ficaria com a metade do corpo do neném e ambas estariam satisfeitas. Ante decisão tão severa, uma das mulheres preferiu ceder e entregar o filho inteiro a outra do que vê-lo cortado. Esta outra, entretanto, concordou com a cruel divisão do bebê em duas postas.
     A pequena história poderia ser mais uma das múltiplas decisões ásperas do Antigo Testamento, mas o rei Salomão, em um gesto de sabedoria emanada do próprio Deus, manda então que se entregue a criança viva e íntegra a primeira mulher, que preferira perder o filho a vê-lo dividido. Aquela era a mãe.
     Muito curioso é que ao término dessa história, “todo o Israel ouviu a sentença que o rei proferira, e temeu ao rei; porque viu que havia nele a sabedoria de Deus para fazer justiça.”
     De minha parte, sempre imaginei que a justiça aplicada com sabedoria não seria algo a se temer, mas sim a se louvar. O povo israelita parecia pensar diferente.
     Não sei se algo mudou até os dias hodiernos.


     Em outro momento, o mesmo Salomão, em um dos seus múltiplos adágios considerados inspirados (em vários sentidos), afirmou que nada de novo havia de baixo do sol.
     Não só foi desmentido literalmente pelos avanços tecnológicos, que nos permitiram avançar para lá dos céus onde ele sequer imaginava que alguém (ou alguma coisa enviada por nós) poderia certo dia alcançar, mas mesmo metaforicamente, seu aforismo não se sustenta.
     Isto porque, pra quem se atenta, a vida não para de nos surpreender.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Ilustração - por Yuri Shwedoff (artstation)

Assim de fato matam o samba

     As coisas avançam, eventualmente evoluem, na medida em que, para cada um, suas opiniões são atendidas.

     Por anos o samba foi um estilo de música que representou a identidade nacional. E representa na medida em que faz sucesso, e é cantarolado ao longo do país. Se é algo que ninguém escuta, por melhor que seja a música, ela não pode ser identificada com a alma brasileira.
     Com o passar do tempo, diversas ramificações, como o pagode, surgiram (há um dissenso sobre o assunto, mas uma das opiniões sobre o tema afirma que a diferença entre o samba e o pagode é que neste último o ritmo é mais cadenciado, romântico, e se utilizam instrumentos eletrônicos com generosidade, enquanto o samba é levado prioritariamente pelo violão/ cavaquinho, tamborim e cuíca, possuindo ritmo mais acelerado).
     E sendo o pagode uma ramificação do samba que fez sucesso e conquistou um grande público (a despeito de os sambistas auto-alcunhados “de raiz”, puristas, surtarem com a comparação), pode-se reconhecer como sendo o samba fazendo sucesso, já que é somente uma sua derivação. 
     Porém, mesmo o pagode anda em desuso, alguns pagodeiros sequer se reconhecem como tal, e ficam em suas lamúrias e vagidos de um suposto preconceito pra cá e pra lá.

     Das coisas que julgo mais irritantes no assunto samba, é quando tentam reavivá-lo por meio do saudosismo.
     Samba, na minha singela opinião de não-especialista é algo que cheira a velho, varicoso, mórbido, justamente por olharem tanto pra trás – e não vislumbrando o futuro como deveria ser. 
     Como é de praxe, curtir a boa música que foi feita em anos idos é ótimo tanto para o ouvinte quanto para os atuais músicos. Para estes últimos, além do prazer de se escutar o que se gosta, é também um ótimo insumo para que se possa progredir, para que possa inspirá-los a fazer novas canções. 
     Respeite-se, reviva-se e aprenda-se com o passado. Natural. 
     O problema é que esta base histórica deve ser utilizada para avançar, não para se ficar preso a ela. Pois senão, ao invés de te empurrar para frente, vira uma bola de ferro agrilhoada a seu tornozelo que te leva para o fundo. E te afoga.
     Acredito que o principal motivo a fazer com que o samba tenha se tornado apenas um esqueleto apodrecido seja exatamente esta prostração, esta subjugação ao que passou.
     É pra frente que se anda, diz uma letra de Ary Barroso. Parece que o conselho não foi assimilado.
     Quando escuto a música “Não deixa o samba morrer / Não deixa o samba acabar...” a impressão que tenho é que é preferível mesmo morrer a ouvir pela enésima vez a mesma ladainha infernal, o mesmo chororô reiterado.
     Costumeiramente julga-se esta canção como um samba, mas na verdade trata-se de um réquiem.

Fotografia submersa - por Seth Casteel (littlefriendsphoto)

Marchinhas de carnaval

     Creio que uma das coisas mais anacrônicas da cultura pátria sejam as tais marchinhas de carnaval – se é que ainda podemos considerá-las como elementos de nossa cultura, e não só do nosso passado. 
     Dentro de cada contexto, de cada época, a curtição no carnaval, seja da juventude, seja dos mais velhos, assume variadas formas. Porém, tratam as marchinhas como se fossem um patrimônio nacional (!).
     ¿Como assim, Cara Pálida? ¿Por acaso desfrutar o carnaval escutando uma marchinha é mais nobre do que indo atrás de um trio elétrico? ¿Ou dançando ao lado de um carro de porta-malas aberto, com seu som potente estrondando os tímpanos de quem passa perto? ¿Ou dos foliões seguindo os bonecos de Olinda? ¿Não são todas formas variadas de diversão, consoantes a época em que se manifestam?
     Pode-se, evidentemente, ao longo do tempo, preferir uma a outra, ou nenhuma delas – até porque, estatisticamente, sempre e sempre, a quantidade de pessoas a participar destes eventos são minoria no todo da população.
     O que julgo espantoso é deliberar que uma seja a representação da cultura brasileira, e a outra, não. É uma ideia completamente equivocada. As marchinhas de carnaval compõem nossa cultura, da mesma maneira que trios elétricos, carros de som, carnaval de Olinda, festas de São João, festival folclórico de Parintins (Caprichoso e Garantido), etc.
     Que cada qual aprecie uma ou outra manifestação da cultura popular da forma como bem lhe aprouver. O que não dá para aceitar é que certos çábios definam quais eventos populares representam a nossa cultura. 
     Francamente, convenhamos.

Yoda - por Jerry Vanderstelt (Arte digital - Pinterest)